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EM BUSCA DO SAPATINHO DE CRISTAL: Tarefa para sempre

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Ainda contaminada com os efeitos do vestido cor de rosa, herdado pela mãe de Cinderela e rasgado pela madrasta, rodando numa chuva de estrelas, sendo transformado pela Fada Madrinha num maravilhoso vestido azul, começo a escrever este texto.

Esperei ansiosamente pelo filme da Disney e não me frustrei em nenhum momento. Há 14 anos, minha dissertação de mestrado abordava o tema. Durante uma semana, num passeio pelas livrarias, comprei 14 adaptações do conto disponíveis no mercado e comecei a realizar o estudo, confrontando-as com duas que elegi como paradigmáticas: a história dos Irmãos Grimm e a de Charles Perrault. Minha busca: estudar o elemento mágico e verificar a forma que assume em relação àquelas adaptações que considerei como modelos, inclusive constando em muitas a total supressão de etapas, tornando a historia vazia e sem seu efeito principal: enfeitiçar as crianças.

O feitiço ocorre exatamente em função da estrutura do conto de fadas, que prevê etapas encadeadas e repletas de símbolos mágicos: os arquétipos, que segundo a teoria junguiana, utilizada como teoria nesse estudo, é o ingrediente básico, uma ponte encantada construída pelo narrador, possibilitando à criança a realização de sua travessia nas diversas etapas de amadurecimento. Através da fantasia e do mágico, a criança atinge territórios onde ela se sente capaz de concretizar seus desejos, estruturando sua personalidade e obtendo as condições necessárias ao seu desenvolvimento.

Tanto na História de Charles Perrault, final do século XVII, como na dos Irmãos Grimm, século XVIII, a Cinderela percorre uma grande trajetória até conquistar seu sonho. São dois bailes na história mais antiga, a de Perrault, e três na narrativa dos Grimm. Há uma evolução de vestidos e sapatos e as tarefas são muitas até que a heroína conquiste o sucesso final, termo utilizado para definir o “felizes para sempre”. No conto dos Irmãos Grimm, não há uma Fada Madrinha configurada, mas sim a Amendoeira, que nasce de um galho, uma encomenda feita por Cinderela a seu pai, numa de suas viagens. A árvore cresce e os desejos da jovem são atendidos por um pássaro que nela pousa, simbolizando o arquétipo da grande mãe.

A Disney no século XX adaptou a história de Charles Perrault, a qual continha a fada. Tanto a adaptação para a literatura, como para o cinema, conservam os principais elementos mágicos: a fada e o sapato. Sintetiza, entretanto, todas as etapas e sofisticando e exagerando muitos símbolos. O sapato, por exemplo, sofre uma modificação na tradução, pois era de vidro em Perrault, mas é traduzido para o português como cristal. Os conceitos do bem e do mal, que não ficam tão claros e marcantes nas narrativas originais, tornam-se fortes na adaptação da Disney, mas por outro lado, a história maquia com atenuantes os castigos que são impostos às irmãs más, ao contrário dos Irmãos Grimm, os quais imprimem a elas um trágico final.

Durante o século XX, a Walt Disney envolveu as crianças com uma história de fadas leve e sem comprometimento, não ocorrendo uma trajetória completa da heroína, maltratada ao extremo, demonstrando uma bondade além da conta e sem muito esforço, é visitada por uma fada que numa só noite satisfaz seus desejos, sendo o conflito e as tarefas reduzidos a ponto de quase desaparecerem. Os animais, marcas constantes nas histórias da Disney, são os principais ajudantes da heroína, auxiliando-a a todo instante na confecção do vestido e também na sua libertação, quando é presa pela madrasta.

Cinderela não é mais uma história, cuja fonte oral seja referência das crianças do nosso século. Assim nasceu a história, que foi recolhida através da oralidade e repassada geração pós-geração, aperfeiçoada por Charles Perrault e depois pelos Irmãos Grimm, em versões diferenciadas. Popularizada ao extremo pela Disney primeiramente através da literatura, imprimindo uma face à heroína, à madrasta e às irmãs, de forma que nenhuma criança consegue imaginar estes personagens, sem essas referências. Depois, através do cinema, discos e fitas K7, que acompanhavam livros, ratificando o desenho perfeito do vestido e o brilho dos sapatos.

Inúmeras adaptações seguiram no caminho da Disney, filmes que imitavam a trajetória da heroína, modernizando, trocando e substituindo símbolos e arquétipos. Eis que agora surge o filme com roteiro de Chris Weitz, direção de Kenneth Branagh e no elenco: Lily James, Helena Bonham-Carter, Cate Blanchett e Richard Madden.

Um filme fiel ao modelo Disney, porém com surpresas sempre bem vindas com relação ao antigo.  Embora, ainda fique a lacuna de um processo mais longo da trajetória da heroína através dos três bailes, um esforço maior para conseguir seus sonhos, pelo menos buscar a abóbora, este filme encanta, hipnotiza e enfeitiça. Deu mais tempo para o romance entre o príncipe e Cinderela, deixando ocorrer a magia do olhar primeiro, mas reduzindo a artificialidade que caracterizou o filme antigo, no qual não havia nenhuma troca de palavras. O aparecimento da fada, testando a capacidade de diferenciação na personalidade da heroína, outra característica marcante do conto de fadas. A maravilhosa transformação do vestido rasgado pela madrasta, que leva o público de qualquer idade a também girar junto e realizar com a heroína a transformação daquilo que todos desejam: seja um príncipe, um castelo, uma casa, um filho, uma viagem, o sucesso profissional… Mais um mérito: a cena do jardim secreto e o balanço: um símbolo novo, uma feliz introdução, que mostra a coragem da personagem, que oscila ao sentar, depois o embalo em gradação remetendo aos passos do namoro e o próprio príncipe que lhe calça o sapato que cai no chão… Essa experiência de atualização e introdução de diferentes arquétipos é sempre enriquecedora, fortalecendo e ressignificando o conto.

Repetindo a mesma palavra dita na abertura deste texto, me sinto contaminada pela magia do filme. E observando a sessão em que assisti, o maior número era de adultos, que certamente buscavam rever e reviver, pois contos de fadas são a expressão mais pura e simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo, representando através das fadas e de seus heróis em conflito, a busca de soluções rumo a um sucesso final, contribuindo assim, trazendo a teoria junguiana, para o ingresso no processo de individuação rumo a pela realização do self.

Mesmo que ocorra uma diminuição dos símbolos, supressão de alguns e atualização e introdução de outros, a Disney tem o grande mérito da preservação e da divulgação de todo esse material arquetípico. Tais símbolos são como um cristal, que precisam irradiar seu brilho primordial e serem encontrados nas mais diversas adaptações, exatamente como os cacos de um antigo sapatinho quebrado há milhares de anos.   Recordando o final da minha dissertação: “Mesmo atualizado, precisa ser encontrado sempre na escadaria de um castelo e cumprir sua missão: levar o ser humano à realização da sua totalidade, através de uma aventura interior única que o conduzirá ao sucesso final.” Fui ao cinema em busca de mais um sapatinho de cristal. Tenho certeza de que o encontrei. Minha busca, entretanto, não terminou. “Para sempre” é uma frase que habita os contos de fadas e traduz minha tarefa.

Viviane De Gil

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