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Editora e Distribuidora

É preciso uma aldeia inteira para salvar João e Maria…Onde estão as pedrinhas brilhantes e as migalhas de pão?Há outras marcas no caminho…

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Joãozinho morava numa casa de acolhimento. Não havia Maria. Ele estava sozinho. A família era apenas uma avó muito idosa e doente que fora parar no hospital e depois morrera. Uma vez por semana ele participava  de uma oficina que presta serviço voluntário de contar histórias às crianças da instituição.         Como muitas crianças que vivem ali, Joãozinho fora abandonado numa floresta, quase devorado por animais selvagens, seduzido por uma encantadora casinha de doces, enganado por uma bruxa, mas sobrevivera. Depois de muito vagar, encontrara o lago, mas ainda não sabia como atravessar. Ele ainda se sentia perdido. Seu sorriso era breve e tinha olhos tristes. E, um dia escutou uma história…

        “Cercados por uma grande floresta vivia um pobre lenhador com sua esposa e seus dois filhos. O menino         se chamava João e a menina Maria. Ele tinha pouco      para comer e para compartilhar e, certa vez, quando      uma grande escassez caiu sobre a terra, ele não    conseguia mais trazer o pão de todo dia. Então, quando   o lenhador ficava pensando nisto durante a noite em         sua cama, ele se agitava de ansiedade, resmungava e   dizia para sua esposa
        — O que será de nós? Como iremos alimentar nossas     pobres crianças, quando não tivermos mais nada para     comer, nem para nós mesmos?
        — Eu te direi como, meu marido, disse a mulher, —         Amanhã de manhã bem cedo, nós iremos levar as         crianças para a floresta onde ela é mais densa, lá iremos      acender uma fogueira para elas e daremos um pedaço   de pão ou mais a elas, e depois iremos para o nosso    trabalho e as deixaremos a sós.

        Elas não encontrarão o caminho de casa novamente e    nós ficaremos livres delas.
        — Não, esposa, disse o homem, — Não farei isto; como   poderia suportar deixar meus filhos sozinhos na        floresta?   Os animais selvagens viriam logo e as    reduziriam a    pedaços.
        — Oh, seu tolo! Ela disse, — Então nós quatro iremos     morrer de fome, podes então ir preparando as tábuas       para os nossos caixões, e ela não o deixou em paz até    que ele concordou.
        — Mas vou sentir muita falta das nossas pobres     crianças, disse o homem […]”

        Quem não escutou essa história na infância? Talvez tenha contado e recontado para alguma criança? Aquele “Era uma vez…” descontraído antes de dormir, resgatado da memória, a narrativa reinventada, arquétipos atualizados e a casinha toda confeitada com os doces preferidos pela criança.

         Da forma oral ou usando algumas das inúmeras adaptações existentes, desde minilivros, até aqueles gigantescos que se desdobram e mostram os doces saltando da casinha. Algumas historinhas bem pequenas, outras médias e também as enormes que oferecem descrições detalhadas das desventuras das crianças perdidas, abandonadas pela família, as tentativas de retorno ao lar, e depois, aprisionadas por uma bruxa.

        A história de João e Maria é um conto de fadas que ultrapassa gerações. A narrativa mais conhecida foi publicada pela primeira vez em 1812, de autoria dos Irmãos Grimm. É uma versão já modificada para que fosse possível contar as crianças do século XIX.  

        As histórias mais antigas e consideradas originais, no entanto, descrevem a dura vida na Idade Média. Devido à fome, à constante escassez de comida e às pestes, o homicídio infantil tornava-se nesses momentos de crise, uma prática comum. O conto real tinha o nome de “As Crianças Perdidas”, e se passa nessa época sombria. Longe de ser um conto infantil, é uma representação das dificuldades passadas naquele período devido à falta de comida.  Contam essas histórias que os irmãos são deixados no bosque para morrerem, desaparecerem e se tornarem um problema a menos, porque não podiam ser alimentados e representavam um empecilho à sobrevivência dos pais. Uma situação inimaginável, que nos causa dor.

        Em algumas adaptações, não havia madrasta; a própria mãe persuadiu o pai a abandonar seus filhos. Esta modificação, como na Branca de Neve, pode ter ocorrido com o passar do tempo, como uma forma de atenuação deliberada da violência contra as crianças, até para que as mães conseguissem contar de forma mais natural, pois talvez, não suportassem a ideia da existência de outras mães que ferissem os próprios filhos. Surgia, aos poucos, uma literatura mais direcionada ao público infantil.         O arquétipo da mãe, de qualquer maneira está presente na imagem tanto da madrasta, quanto da bruxa. O fato de que a mãe ou madrasta tenha morrido quando as crianças matam a bruxa se deve ao fato de que a mãe ou madrasta e também bruxa são, de fato, a mesma mulher, ou, pelo menos, que a personalidade delas está unida por um elo.  

Além de colocarem as crianças em perigo, elas têm a mesma preocupação pela comida: a mãe ou madrasta para evitar a fome e a bruxa, proprietária de uma casa feita de guloseimas e ao mesmo tempo, seu desejo de comer as crianças.

        A floresta do século XXI

        Se compararmos nossa época com a idade Média, nós já temos tantas histórias terríveis nesta segunda década do século XXI, que não perderiam em nada para aquela época, se levarmos em consideração o tema tragédias e infanticídio.

         Nossa selva tem bruxos implacáveis. Demônios exemplares. Seres que trabalham sorrateiramente dentro das suas casas. Ao contrário da escuridão das trevas, temos luzes ofuscantes, sons ensurdecedores… Se na idade média os habitantes das aldeias eram obrigados a assistirem execuções, enforcamentos e fogueiras queimando pessoas, em nosso tempo, as cenas chegam repentinamente em nossas mãos e como robôs vamos girando a tela e nos horrorizando perplexos. Ou, temos telões nas nossas casas e em vários locais públicos, que sem censura, mostram cenas, depoimentos, investigações e reconstituições de crimes em qualquer hora do dia.

        Daria para desligar tudo, é claro. E seria uma bela ideia, sair para um passeio com as crianças. Por que não? No momento, é impossível, há outro monstro mortal, do qual temos que nos proteger: um vírus invisível, que se transforma e se multiplica a cada dia. Uma distopia tantas vezes narrada em filmes e livros de ficção científica: famílias aprisionadas com seus filhos dentro de pequenos quadrados, onde é preciso trabalhar, comer, dormir, estudar e brincar.

        Estamos perdidos. E a floresta? Nós mesmos a construímos.

        E nossas crianças?  Elas estão sim, da mesma forma que na Idade Média, igualmente inseridas em nosso contexto. Dentro de nossa floresta.

         Não é bem assim. Exagero! Muitos dirão: nossa história mudou; são tempos diversos; passamos por transformações; é absurda a comparação com a idade Média; temos estudos de leis; é outra civilização; uma infinidade de teorias do conhecimento, da psicologia e da pedagogia. Temos a ciência e já existem vacinas.

        Por um lado, sim, naturalmente. Os tempos são outros e bendita a evolução da ciência. É ela quem está nos salvando. A ciência vai nos resgatar. Só que será preciso a retomada.     A história tem idas e vindas, é cheia de voltas, desvios e encruzilhadas. Chega sempre aquele momento de nevoeiro em que não se sabe por qual caminho seguir. Há bifurcações. Fim de caminho. Floresta.  Talvez seja o momento de parar, sentar e refletir. Quem sabe, a história não nos convidou a isso? E não estaria na própria história as marcas do caminho? Nas histórias?

Marcas no caminho

        Olhamos pelas janelas e não vemos estrada. Por onde seguir? Como voltar? Como assim? Não deixamos as pedrinhas brilhantes? E as migalhas de pão, os pássaros comeram? Como ajudaremos tantos Joãozinhos e Marias?

        Voltemos à história. Por que um conto de fadas tão antigo ainda faz a criança temer ser abandonada na floresta? Ou se apavorar com a bruxa que vai comer o pobre irmão preso numa jaula? E vemos brilho nos olhos dela, quando Maria empurra a bruxa no forno? E ela sorri quando constata que João e Maria voltam para casa e lá não mais encontram aquela que os fez sofrer?

Nossa floresta tem holofotes que ofuscam a visão. Sons estonteantes bloqueiam a audição. Olfato e paladar são direcionados por apelos publicitários que fazem as crianças desejarem todos os dias devorar a casinha de doces. E para a maioria, ela é imaginária e inalcançável. Inúmeras crianças estão aprisionadas em apartamentos, em pequenas casas, grande parte sem divisórias, dificultando a existência do espaço do faz de conta, da fantasia, do brincar. Não mencionei um de nossos sentidos? Esqueci do tato? Espero que ninguém jamais o esqueça. Sim, ele é importante e indispensável. E no momento, está restrito. Precisaremos também resgatá-lo.

        Bruxas, mães e madrastas…

         Elas se confundem e se alternam. Um Arquétipo atualizado pela criança que escuta e percebe todas as nuances deste conto e de tantos outros. Neste conto de fadas dos Irmãos Grimm, há também o pai.    Um pai que atende aos desejos da madrasta, mas se arrepende.

        E no final, temos uma personagem coadjuvante: uma pata que ajuda Joãozinho e Maria. Ela explica que somente uma criança de cada vez poderá atravessar o lago e assim retornar a casa. A travessia solitária de cada um por vez está associada ao processo de individuação, segundo Jung, um caminho que cada pessoa percorre para chegar à realização e conseguir a felicidade.

Os Patos tem um simbolismo próximo ao das aves em geral, remete à liberdade, transcendência, mas há ainda uma característica importante: eles vivem em família, nadam sempre todos juntos. Quem chegou para ajudar João e Maria, foi uma das patas desse clã. A figura feminina lembra a mãe e também o fato de que uma das mães nessa floresta percebeu a solidão das crianças, escutou a necessidade e as conduziu.

        Hoje, diante dessa pandemia que nos oprime, olhamos na janela e constatamos que não há pedrinhas brilhantes, nem migalhas de pão, o caminho parece ter sido desmarcado. Só que nossas crianças ainda estão aguardando o desfecho. Infelizmente, muitas crianças não conseguiram escutar a parte em que é possível matar a bruxa, não deu tempo. Talvez, a história nunca tenha sido contada para elas. Presas dentro de gaiolas, elas olharam o caminho e jamais encontraram uma fila de contos de fadas no lugar das pedrinhas e migalhas. Os contos teriam sido as marcas do caminho de retorno.

Uma estrada de vaga-lumes

        Penso nesse instante, em que uma luz no caminho é urgente, num provérbio africano que tantos educadores citam, e que é fundamental quando pensamos nas crianças: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Nossas aldeias, no momento, estão invisíveis. Escondem-se nas bolhas virtuais, estão recortadas dentro das varandas gradeadas, divididas nas janelas dos edifícios.         E então, quando olho essa aldeia inteira da minha janela, lembro-me de Joãozinho. Não o irmão de Maria, da narrativa dos Grimm, mas do menino que deu início a este texto. Aquele que morava na casa de acolhimento e que escutava também a história deste Joãozinho e desta Maria dos contos de fadas. Durante a atividade, as crianças desenharam casinhas e foram convidadas a enfeitá-las com balas de goma. O menino distribuía as balas, alternando cores e lambendo os dedos, vez por outra comia uma das balas, mas tinha um pouco de receio. Ao final, quando todas as casinhas estavam enfeitadas, também foi dito às crianças que podiam comer as balas das casas.

Joãozinho sorria. Açúcar nos lábios. Relembrava a avó, relatava algumas aventuras com ela vividas e seu sorriso ficava cada vez mais doce colorido de balas de goma. A história dele foi desenhada com outros contornos.  A travessia do lago foi suave e o menino se permitiu flutuar no sonho. Sua história teve outro início. Joãozinho ganhou uma nova família e recriou seu feliz para sempre.

         Não havia pedrinhas brilhantes, nem migalhas de pão para marcar seu caminho de retorno. Não havia retorno. Mas havia uma história para ser contada. Havia um caminho marcado com histórias. As memórias dele com a avó foram por ele revividas. Todas as outras histórias contadas a Joãozinho ladrilharam o caminho que o conduziu a uma nova história e desta vez, por ele escrita.

        Há um caminho. Ele já está todo marcado. Todos os caminhos que percorremos têm histórias. Além de nossas varandas, além das nossas janelas e além das bolhas virtuais que criamos. Há crianças perdidas.  Há histórias para contar. Há histórias por narrar.  Joãozinho e Mariazinha precisarão sempre atravessar o lago, um de cada vez. É necessária a personagem coadjuvante, aquela que chegará no momento exato da travessia para conduzir a criança a uma nova história. Há crianças que precisam ser salvas. Olhemos nossas janelas. Agora! Os caminhos que trilhamos estão marcados por elas: as histórias.

Fotografias da autora, tendo como fontes ilustrações de livros de sua biblioteca pessoal:

Leete-Hodge, Lornie. Ilustrações de Beverli Manson. círculo do Livro, São paulo. 1978.

Os mais belos contos de Grimm. Ilustrados por alexander Koshin. civilização. São Paulo.

Clássicos Disney. Círculo do Livro. São Paulo.

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